Uma mulher de fé

Todas as vezes que eu vim aqui falar sobre um tipo de  mulher essa mulher sempre era eu, ou pelo menos era uma crônica que tinha como ponto de partida o meu olhar exclusivo. Mas hoje será diferente…essa mulher de fé sobre a qual iniciarei o texto não sou eu, mas sim a minha mãe. São 03:05 da manhã e eu não consigo dormir pq minha cabeça não consegue parar de ficar num looping infinito de idéias, de “se” , “de quando”…

Há um mês e meio minha mãe faleceu. Sim ela foi mais uma vítima da Covid. Sim, ela jovem demais. Sim, ainda caem muitas lágrimas dos meus olhos enquanto digito esse texto.

Sim, eu tenho tanto pra falar…o luto é um processo estranho, é um abrir a caixa preta de tanta coisa escondida e sublimada.  Sempre ficava pensando em todos os anos que morei sozinha com minha mãe que eu não seria ninguém num mundo em que ela não estivesse. Porém, me vejo sendo alguém mesmo ela não estando fisicamente aqui.

Ela sempre foi uma mulher de fé. Agora me vejo tendo uma fé para além do que eu posso explicar ou mesmo entender. Na verdade eu me permito apenas sentir essa fé, sinto ela passar por mim e me sustentar. O Espírito Santo de Deus sopra e ninguém sabe de onde vem e nem para onde vai. E nessa brisa leve e suave eu sigo no meu caminhar.

Tenho gratidão por tudo que essa mulher de fé fez por mim e gratidão TB a Deus por tê-la escolhido para me gerar e cuidar.

Lágrima caem ao pensar nisso tudo? Lógico que sim! Lágrimas são preces silenciosas. Elas botam pra fora o q o coração já não consegue expressar. E se eu choro é pq amei e continuo a amar demais essa mulher. O amor é infinito, é fonte inesgotável, imortal. Ele nos transforma mesmo nos momentos mais desafiadores.

 

 

 

Na maternidade não há competitividade

Lá se vai um mês que estamos na clausura. Daqui a cinco dias, a minha primogênita Catarina completará uma década. Dez anos de uma grande mudança em minha vida,com grandes rupturas e alguns processos naturais. Dez anos que me tornei mãe e que não consegui mais pensar como antes ,egoistamente. Dez anos dos quais pelo menos sete deles eu tive que lutar por minha filha de forma muitas vezes solitária, que tive que ouvir de pessoas que achavam q por eu não ser casada deveria escutar seus conselhos e intromissões e ouvir que os “defeitos” no comportamento da minha filha vinha dessa condição de ser mãe carreira “solo”.  Em todos esses anos eu tive que me dedicar acima da média, trabalhar mais, estudar de madrugada e nunca desistir de querer construir algo, porque já não era só eu. Eu perdi meu direito de adoecer, de ser fraca e de morrer. Alguém depende de mim. Nesses anos todos tive que aprender a rever as coisas pelo olhar de uma criança, do ineditismo, das sensações em estado bruto. Tive que desenvolver a tolerância a níveis quase intoleráveis (rsrs). Algumas vezes me permiti enlouquecer, repeti comportamentos que sempre abominei na minha mãe ( consegui inclusive entender pq as vezes ela foi tão ignorante com a gente),mas nunca realmente quis desistir de ser mãe. E a gente pode desistir de ser mãe? acho que desistimos quando negligenciamos os cuidados, quando a gente não quer mais dizer o “não”, quando desprezamos a responsabilidade na formação da personalidade de alguém.

Mas , até as mães que desistem, elas TB por alguma razão desistem. E eu não me sinto a vontade de julgar…

Minha maternidade me fez ver mais o lado do outro, sem dúvida…

Ninguém é melhor mãe que ninguém. Muitas são as melhores dentro das suas próprias limitações. Não dá pra ter competitividade nesse campo.

Bem,hj o texto do fica por aqui.

Hj esse texto escrevi só para não deixar meu cérebro enferrujar.


 

Dias iguais?

Não é a primeira vez que passo por uma quarentena. Na iminência do parto de Catarina, no ano de 2010, a gripe suína matava muitas mulheres grávidas. Eu, como estava no grupo de risco, deixei de ir ao trabalho, supermercado, igreja, não colocava nem a minha cara na rua. Na época eu era mega hipocondríaca…chegava a brigar com a minha mãe para ela ir se vacinar, lavar as mãos, tirar a roupa que usava para trabalhar assim que chegasse em casa.

Mas agora é diferente. Não sou só eu. Isso é que dá medo. O tempo tá estranho. Tenho medo de começar a achar que o mundo lá fora não existe. Tenho medo de passar muito tempo sem ver Catarina e sem ver minha mãe. Essa é a sensação mais estranha.

Os dias vão passando …alguns tão iguais que me perco. Meu sábado tava com jeito de terça. Meu domingo então…

Ainda bem que ocupo muito meu tempo com tarefas domésticas, internet…e que falo sempre com mamãe, Catarina, amigos.

Isso tudo vai passar. Não consigo ver o dia e hora, mas vai passar. E os dias vão voltar a ter suas mesmas identidades. Sábados vão ter cara de sábado.

Com o tempo…

Com o tempo a maturidade torna intolerável fazer papel de idiota. Com o tempo toda perda de tempo pesa pq já nos tornamos cientes de que não temos tanto tempo ou de que não somos donos dele.  Com o tempo já não falamos com frequência “tanto faz” pq faz sim diferença. Com o tempo nos afastamos de pessoas amargas e vampirescas porque prezamos mais por nossas próprias sanidades. Com o tempo nos permitimos não fazer sala para pessoas chatas, simplesmente saímos da sala. Com o tempo o sapo que vivia entalado na garganta pula pra fora e vomita na cara dos intragáveis e indigestos.

Mudar para que?

Resolvi ser loira outra vez. Parece que eu precisava de uma grande mudança. Uma mudança em que eu pudesse me comprometer comigo mesma. Ser loira dá muito trabalho, mas eu precisava me cuidar mais , perder (ou ganhar) tempo comigo mesma. Precisava olhar no espelho e reconhecer uma mulher com aparência que me agradasse. Precisava olhar para ela e dizer: “Nossa, como estou linda hoje”. Precisava ver os ponteiros da balança decrescer uns dois quilos e dizer: ” Parabéns. Você se esforçou e está mais linda”.

Eu tomei abuso de umas roupas e simplesmente me desfiz delas. Pior do que roupas que não te caibam no corpo, são roupas que te fazem desconfortável pq não te representam. Um dia me olhei, me vi resmungona e desgastada, cansada e sistemática e disse: “essa não sou eu, nem quero ser assim”. Ganhei uns brincos bem grandes e exóticos no Natal. Pendurei nas orelhas e me senti ousada. Essa sim, essa é a mulher que quero ser…

Essa vida, sabe, ela tende a ser pesada e vai pesando cada vez mais com os anos, mas a nossa alma , nosso espiríto tem que se tornar mais leve, tem que tirar as “cargas” de cima da gente…senão com tempo vamos envergando…se não dermos por nós…viramos burros de carga, com grandes olheiras na cara, com dores pelo corpo…numa vida cinzenta.

Eu realmente preciso das cores.

Ontem me vi “pegando” com olhar contemplativo as cores do fim de tarde, aquele tom de amarelo misturado com Rosa e Azul, o vanilla sky ( que só me lembra o Tom Cruise naquele filme de mesmo nome). Isso sim são cores, isso sim é vida.

A carta do ano de 2019

Vocês pensavam que eu não iria enviar minha Carta hj?

Estavam enganados.

Mais 365 dias s vce passaram e tenho por missão há mais de dez anos escrever sobre o que o período de um ano( aqui no caso foi 2019)significou pra mim.

Para muitos este ano parece ter sido ruim, mas aposto que para algumas pessoas foi um bom ano. Para mim…o que posso dizer?

Foi um ano que aprendi a descansar.

Descansei de ideias antigas, descansei os cabelos e dei um tempo nas químicas,deixei de lado um pouco a maquiagem, também descansei um pouco da busca incessante de querer ser 100% profissional, mãe de família e esposa nota dez, mulher de capa de revista. Descansei pra não ficar “quebrada” demais. Dois empregos, dois filhos, dois chefes…enfim…

Aprendi a descansar pra poder tomar novo fôlego,para me recompor, me refazer.

Tem duas preciosidades que me convocam a estar presente, que exigem muito, que são minha potência…Dom Pedro e Dona Cataroca. Esses dois sempre me forçam a ver a vida com os olhos de criança ( agora também de pré-adolescente), me lembram de quem eu fui nos anos 80 e 90, me fazem rir de perguntas inquietantes e sinceras demais. E me impressionam pq outro dia moravam na minha barriga e agora já andam por aí sem querer segurar na minha mão. Eu ensino muito a eles,mas a simples existência deles me faz aprender muito. Me torno mais combativa por eles.

Sou agradecida a Deus.

Estou aqui sentada na mesa de jantar da casa de mamãe.Olhando ela preparar mais um prato para a ceia de Natal. Penso: “obrigada, Deus, por estar aqui e por ela estar aqui.”

Se eu pensar direitinho…sou até rica.

Tenho amigos que conheci há 10,20 anos. Que riqueza.

É por todas e para todas essas riquezas que costumeiramente escrevo essas Carta. A Carta do Ano.

Meus sinceros votos de felicidades.

Um ótimo, um maravilhoso 2020.

Karine Priscila.

Uma mulher da vida

Hoje em dia eu conto para Catarina as travessuras dela de antigamente, mas minha menina já não recorda mais suas cataroquices. Ela não lembra quando perguntou para o travesti se ele tinha cocota, também não lembra quando escreveu um bilhete de “despedida” e tentou fugir de casa só de short e mochila de rodinhas. Por isso que faço questão de registrar aqui suas Cataroquices. Lembro,quando ela ainda tinha por volta de cinco anos e me perguntou quando eu seria criança pra poder brincar com ela. Eu disse que não tinha mais como eu ser criança pq daqui pra frente eu só envelheceria, que eu só seria como uma criança quando eu ficasse velha. Então ela me lançou essa pergunta: “Mãe,e quando você era criança onde eu estava?”.
(Nossa, eu não sabia nem o que responder pq esse é o tipo de pergunta que eu tb faria nos meus momentos de reflexão.)
Então eu falei…”Filha, acho que você tava com Deus. Foi de lá que a gente veio”.
Agora, as cataroquices são outras, as conversas são mais avançadas. Tipo : “Mãe o que é uma mulher da vida?”
Eu: Filha, eles falam assim da mulher que se prostitui.
Ela: Como assim?
Eu: A mulher da vida é a mesma que chamam de rapariga, de quenga, de garota de programa, de prostituta, e vulgarmente de puta. São as mulheres que tem relações sexuais por dinheiro.
Ela: Ah tá
Ela: E você é prostituta mamãe?
Eu: Minha filha, que doidice é essa. Lógico que não. Eu  sou servidora pública.
Ela: É pq a senhora ja teve filhos, então a senhora já teve relação…
Eu: Mas não foi por dinheiro, minha filha. (já tava com vontade de rir)
Ela: Mas tem alguém que a gente conhece que é prostituta?
Eu: Minha filha…não. Não que eu saiba.
Ela: Eu já sei! Maria! Maria é prostituta.
Eu: Que Maria, menina?
Ela: Aquela que pede comida na casa de vovó. Ela tem um monte de filhos.
Eu: Não filha, Maria tem um monte de filhos porque ela quer mesmo, não é por dinheiro.
Enfim…
Não sei bem se ela entendeu bem o conceito, mas ficou mais uma cataroquice registrada na minha memória.

A carta do ano 2018

A cartinha deste ano
será um pouco diferente
resolvi fazer em rimas
e enviar pra minha gente
gente que não esqueço
Lembro com muito carinho,
Posso ter conhecido hoje
ou desde pequenininho.
Todo ano eu revejo,
faço a retrospectiva
Vou contando, passo a passo,
um pouquinho a minha vida
Quando ainda era janeiro,
tava com um barrigão
E inchado o corpo inteiro
Esperava um meninão.
Logo após o carnaval,
chegaria meu o garoto
meu Pedro, meu bebezinho
Com seu jeito tão maroto
Mamãe já tinha esquecido
Como cuidar de neném
Trocar fraldas, dar vacinas
Não é fácil pra ninguém
Enquanto isso a Cataroca
Crescia rapidamente
Só queria saber de YouTube
Parecendo adolescente
E a mamãe por várias vezes
Pra evitar qualquer perigo
De ficar mais respondona
Coloco-a de castigo
Cataroca inteligente
Passou a negociar
Bastava ser obediente
Para o celular usar
Enquanto isso no Araçagy
Karine e Marcos lapidavam
essa nova família
E muito eles trabalhavam
em Setembro chegou ao fim
a licença maternidade
E na volta ao serviço
com muita seriedade
virei chefe de um setor
quanta responsabilidade
Eu outubro, mais uma vez
minha mãezinha adoeceu,
mas, quem crê pouco se abala
Deposita fé em Deus
E foi com muita oração
que ela assim foi curada
Pus de joelhos o coração
e sua saúde foi restaurada
E aqui fica minha gratidão
a todos vocês, amigos
Que me estenderam a mão
e rezaram junto comigo
E pra finalizar a história
dessa pequena missiva
Feliz e Natal e Boas Festas
é o que deseja essa sua amiga.

Da série”retalhos do cotidiano”

QUANDO SE TEM UM DOM

A Bíblia diz que se temos um talento não devemos enterrá-lo, mas sim multiplicá-lo. Dizem por aí que eu tenho um dom para escrita. Na verdade, trata-se de um pequeno talento, por meio do qual traduzo coisas que passam pelo meu coração. Mas nestes meses me vi um pouco “travada “ nessa escrita, acho que talvez porque nem sempre considerei que os meus sentimentos fossem tão nobres para serem traduzidos. Muitas vezes, durante a licença maternidade me senti só, desorientada, com muito sono, com o corpo bagunçado….para uma mulher como eu, tudo isso junto é uma receita para um estado de pré- loucura. Graças a Deus existem pessoas com a mesma loucura, pessoas que vivem problemas semelhantes…e como se a vida fosse cheia de control c e control v, a gente acaba se acalmando por não estarmos isoladamente vivendo dramas existenciais. Sabe quando você tem insônia e acha que é a única pessoa da cidade que está acordada? Mas, se de repente, vc descobre que alguém está online no whatsapp, vc se sente reconfortado só pelo fato de existir um outro reles mortal que assim como vc foi abençoado com a falta de sono. É bem isso.

….

DE VOLTA AO TRABALHO

Agora falando sobre estar de volta ao trabalho. Sou eu de volta já não sendo mais a mesma. Sim, não sou a mesma. Existem várias divisões na história da minha vida. Considero a primeira grande mudança quando a Catarina nasceu, a segunda mudança foi depois que casei. Não consegui mais ser a mesma após ambas as situações. Mas nessa segunda grande mudança estou tendendo a ser mais compreensiva comigo mesma, a ter paciência com meu tempo, meu corpo, minhas limitações, enfim. Hoje vejo com maior distância a Karine adolescente, aquela do ano de 1999, 2000. Não a renego, não a critico, mas vejo que o tempo dela foi aquele. Agora sou mulher mesmo, sou profissional, mãe de família, sou até chefe com carimbo e tudo. Olha onde fui parar? Onde nem eu mesma imaginei.

MAMÃE DODÓI E O MILAGRE

Outra vez mamãe ficou doente, internação mais uma vez,mais uma vez nossa fé foi testada e dessa vez, vou te falar…não foi fácil não. É fácil ter fé quando tudo está bem, mas quando vc leva um não, quando as coisas não melhoram, quando vc vive uma guerra por dia…nossa , é bem difícil. O que eu aprendi com isso tudo? Agradeça por tudo que não te falta todos dias, por estar bem, poder andar,comer, dormir, respirar bem. Em momentos bons…ore, em momentos ruins…ore mais ainda. No desânimo…ore, no contexto mais complicado deixa o teu coração repousar na oração. Como um ex-alcoólatra viva um dia por vez e acredite no milagre naquele e daquele dia.

Nostalgia é igual a saudade?

O tempo de São João é especialmente um período nostalgico pra mim, minha adolescência e juventude foram marcadas pelo cheiro da pólvora das bombinhas, pelas letras de forró, pelo gosto dos pratos de comidas típicas e pelos encontros e desencontros nos arraiais da vida.

Mas , hoje, ao contrário de muitos anos, as lembranças parece que se ajustaram no tempo devido, no pretérito. Já nao sou tao convocada a querer, realmente desejar viver tudo de novo. A Karine de hoje realmente é a Karine do presente, que se faz presente, q se sente no presente.

Nao é questão de desvalorizar o que passou. De forma alguma! Todas as  escolhas me trouxeram até aqui. Sou grata à Karine do passado e até acho q com ela me reconcilie, mas agora compreendo que tudo tem seu devido lugar e tempo.