Como sobreviver a um tsunami?

Quando mamãe morreu parece que passou um tsunami em cima de mim. Me levou pra longe? Talvez. Mas levou muita coisa de mim. Curiosamente no dia que ela faleceu minha amiga Ticiane teve um pesadelo comigo, no qual eu era levada por uma grande onda. Dizem que o luto tem cinco fases: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. Segundo a psicóloga que assistenciou minha irmã só existem duas fases: quem vc era antes e quem vc passa a ser dali em diante.

É essa interrogação que me cutuca: E agora não tenho mais mãe? é isso mesmo? quem me protege daqui em diante? Me sobrou ser so mãe de alguém? Esposa? Amiga? Profissional? Cresci de vez , não tenho mais mãe pra me cuidar…Me resta ser adulta. Decidir sobre atestado de obito, encerramento de conta de banco, inventário, venda de imóvel, investir um dinheiro que ganhei sem querer ganhar (ou pelo menos não gostar do fato gerador). Ser adulto é phoda.

Mas foi até aqui que a onda gigante me trouxe. Nadar contra a maré é se cansar. Se minha estrutura foi implodida, vou reconstruir da melhor forma. Vamos ver o que dá pra fazer com o entulho. Vou edificar as paredes na cor que acho melhor. Do jeito que me sinto bem, com as lembranças do que em mim é forte. E as lembranças me fortalecem. A gente paga um alto preço pelo amor. Quando a gente ama muito o corte da ausencia dela é dor profundo. Mas eu aceito o preço: a dor no peito vez quando, as lágrimas todo santo dia. A certeza de amar e ser amado vale o preço.

O luto e suas estranhezas

O luto é algo que ninguém escolhe. Ele escolhe a gente. Nessa travessia tem horas que a gente se desconhece.

Depois que mamãe faleceu me deu uma falta de memória sobre que tínhamos vivido nos meses anteriores. Um branco tão grande. Não lembrava de nada. Em compensação comecei a lembrar de coisas da minha infância com tanta nitidez, eu parecia aquelas pessoas com Alzheimer, que perdem a memória recente e lembram bem de coisas quando eram jovens.

Outra coisa estranha era quando eu acordava e logo ao abrir os olhos, juro valendo, as lágrimas desciam. Era muito estranho…eu nem chegava a pensar. Era abrir os olhos e as lágrimas caíam.

Também era muito estranho quando eu ia comer um doce e achava aquele sabor insuportável. Doce demais. Coisas banais que eu comia sempre, como brigadeiro por exemplo, se tornava insuportavelmente doce. Depois, com o tempo esse gosto foi ficando normal.

Outra coisa estranha: a primeira vez que sorri. Eu estava na cama e Catarina falou algo engraçado e aquilo fez eu soltar uma gargalhada, mas uma gargalhada estranha parecia um lamento, uma coisa  rouca, foi difícil até mesmo eu me escutar gargalhando. Um troço bem esquisito mesmo.

E assim foram acontecendo outras coisas que agora já não me lembro tanto…e cada dia era um dia dessa nova vida, onde as vezes eu nem me reconhecia, mas tinha que enfrentar e me acolher diante dessa estranheza. E ainda sigo assim…

A Carta do Ano

Eu sempre me questionei se num ano como esse eu teria coragem de enviar a Carta do Ano. Ano passado (2019), num dia, do nada, Cataroca virou para mim e disse: “Mãe, qual foi o pior dia da sua vida?” Ao que eu respondi: “Filha, acho que esse dia eu nunca vivi”. E aí veio 2020 com dias e dias difíceis. Com momentos desafiadores que nem na minha fértil imaginação pensei que seria possível.Mas o fato é que hoje estou aqui diante do computador, escrevendo essas mal traçadas linhas, com o coração ainda cheio de esperanças, tecendo sonhos, olhando para trás e percebendo que houve uma Força Maior que esteve comigo em todos os momentos deste ano. Esse meu Deus escreveu em detalhes todos os capítulos deste ano e me fez ver no meio do caos o Seu cuidado. Ele me preparou para o momento mais difícil, me rodeou de amigos, de amor, de orações.Tudo que passa por dentro do fogo deixa de ser o que é. O milho vira pipoca, a água vira vapor, até mesmo o metal amolece e se torna tantas outras coisas. Passar pelo que passei neste ano me fez virar outra pessoa. Não havia como “passar pelo fogo” e sair intacta do outro lado. Mas ao contrário do que pensei não virei pó. Surgi das cinzas outra vez, de forma inexplicável (ninguém consegue explicar o poder de Deus). O ano de 2020 ficará marcado para mim como o ano que mamãe partiu para a eternidade. Naquele dia 17 de maio, às 17 h, quando bateu uma ventania estranha aqui para os lados do Araçagy eu senti um medo irracional e depois a calmaria. Eu não sabia, mas naquela hora ela havia partido. Uma hora depois, quando eu havia acabado de orar com meus amigos do peito e ainda de joelhos eu estava, meu telefone tocou e aquela notícia tão difícil. E na hora mais difícil o Senhor me preparou.Eu queria aqui poder fazer a lista nominal de todos que estiveram ao meu lado nessa ano. Mesmo com o distanciamento social eu senti o amor dos meus amigos me amparando, cuidando zelando. Por medo de esquecer o nome de alguém e cometer uma injustiça não vou citar o nome de ninguém, mas gostaria de agradecer muito a cada manifestação de carinho, a cada conselho, mensagem, áudio, telefonema. Estranhamente, no momento mais difícil, eu senti que tinha marcado a vida de algumas pessoas de forma tão positiva ao ponto delas verdadeiramente se importarem com a minha dor. Então, queridos, obrigado por tudo. Amigos de verdade sentem a alegria e a tristeza do outro e se importam com isso.Desejo que o próximo ano seja de coisas boas e melhores. Que Deus nos abençoe com saúde, paz e alegria, mas principalmente com a Sua presença em nossas vidas,nos permitindo ver os milagres diários, Seu Amor infinito nos cercando com cuidado. Quando Deus está no centro de nossas vidas todas as outras coisas são cheias de sentido.Escrevo essa carta porque o amor tem quer ser vivido e manifestado diariamente. E eu não poderia deixar passar uma oportunidade de dizer que você que está lendo essa carta continua no meu coração e que eu me importo com você.Boas festas. Que Deus te abençoe.Da sua amiga de sempre,Karine Priscila.

Seguindo…

Se minha vida fosse dividida em etapas existiria dois grandes marcos que me modificaram substancialmente. Um seria a chegada de Catarina e o outro seria a partida de mamãe.
Quando Catarina chegou eu tinha 26 anos, mas minha cabeça era de uma adolescente, eu não me preocupava com nada, talvez nem comigo mesma. Eu mudei muito depois que ela chegou, deixei de ser tão egoísta, passei a ver a vida com os olhos dela, passei a ser empática com as outras mães, a me ver como mulher, a ter mais força pra dizer alguns nãos. Passei a entender meus limites. Me reconheci com uma força que não sabia que tinha, uma capacidade de pensar de forma múltipla: dirigindo, conversando e planejando ao mesmo tempo, por exemplo. Passei a me preocupar com minha vida…se eu morresse quem cuidaria dela?
Enfim, mudei muito. Era uma pessoa antes dela e outra depois dela.

A partida de mamãe. Sempre fui unida com minha mãe, uma simbiose, algo que só vendo pra explicar. Mas nossa relação tinha uma hierarquia. Ela era minha generala ( eu chamava assim de forma carinhosa e ela ria). E agora não me acho mais a mesma depois que ela partiu. Eu entendo que ela fez tudo por mim, entendo que seu corpo estava cansado, entendo que amou imensamente, mas… existe o mas…
O mas é a parte que ainda não entra na minha cabeça…a parte que lembra que em fevereiro ela estava aqui, a parte que não se conforma que em novembro ela faria 58…
E apesar disso tudo, apesar de todos os dias eu pensar nela, apesar de eu não compreender esse mistério de onde vem essas pessoas e pra onde elas vão. Apesar de eu acreditar muito em Deus e afirmo que ele é bom e tem cuidado de mim…esse “mas” ainda tem espaço no meu dia a dia.
Esse “mas”, por outro lado, também virou uma força divina e sobrenatural que não sei explicar. Sempre tive muito medo da minha mãe morrer, MAS não sucumbi a minha própria tristeza. Sempre tive medo de não ser nada depois de sua partida, MAS me ponho de pé , vou trabalhar, cuido dos meus filhos, penso em fazer obras na minha casa ( coisa que sempre odiei) , faço planos com meu marido. Eu estou seguindo em frente com essa força que sinceramente não sei de onde vem.E agradeço e agradeço a esse Deus que me põe de pé. E agradeço por tudo que vivi com ela. E agradeço pelos perrengues que passei pra cuidar de Catarina e TB de mamãe quando eu morei com ela e pude fazer isso. Quando penso numa dimensão maior, com o olhar mais distante…penso que estava tudo escrito para ser assim mesmo, para que todos sofressem menos.

O luto e a luta diária

O luto é um dos processos mais estranhos que já passei pela minha vida. Você é de repente colocado num lugar que não escolheu…vc vira o viúvo, o órfão…enfim.  E dali em diante não és mais o mesmo. É um caminho que só se segue adiante, entre momentos escuros e claros. Não é a toa que escolhem o preto e branco pra simbolizar o luto. É uma experiência contra dialética. Não há linha reta. É um ir e vir. Todos os dias tenho memória trazidas a tona. O passado é constante. O passado se faz presente. Penso em quando eu era criança, coisas da minha adolescência, experiências vividas com e sem mamãe.  Meu pai TB tem lembrado de tanta coisa, da primeira vez que mamãe foi ao trabalho dele, lembra da roupa da estampa…Em compensação temos esquecido de coisas recentes.

O luto não é igual para cada um. Embora existam as cinco fases do luto pelas quais todos passam, o luto é diferente. Alguns definem como um estágio de loucura, outros sentem tanta raiva e se tornam agressivos e indóceis. E se a gente olhar o contexto do enlutado todas essas reações são fáceis de entender.

Não há coisa que me deixe com mais raiva do que aquela pessoa que chega e diz “isso vai passar”, “logo logo vc supera isso”…

Deixa eu te dizer: vai passar no tempo certo, esse tempo não me pertence. Eu vou chorar quantas vezes eu quiser, eu vou me lembrar quantas vezes der na telha. Por agora eu não tenho obrigação de superar nada. Superar o q? Esquecer quem eu tanto amei ( e ainda amo) ? Jamais.

Tem um Deus por trás de tudo, por trás dos bastidores dessa grande peça que é a vida há um Deus inteligente e maravilhoso. Ele me conhece, sabe do que sou capaz, conhece bem todas as minhas potencialidades. Ele sabe que eu não tenho condições (e nem devo) mentir para mim mesma nesse exato momento.

As pessoas tem medo de suas próprias fragilidades. Talvez esse medo seja expresso nas frases do tipo “vc tem que superar”. Elas querem te ver superar pq não aguentam seu próprio sofrimento.

Por hj é isso, pessoal. Por hj é o q dou conta de falar. Depois eu volto aqui.

Uma mulher de fé

Todas as vezes que eu vim aqui falar sobre um tipo de  mulher essa mulher sempre era eu, ou pelo menos era uma crônica que tinha como ponto de partida o meu olhar exclusivo. Mas hoje será diferente…essa mulher de fé sobre a qual iniciarei o texto não sou eu, mas sim a minha mãe. São 03:05 da manhã e eu não consigo dormir pq minha cabeça não consegue parar de ficar num looping infinito de idéias, de “se” , “de quando”…

Há um mês e meio minha mãe faleceu. Sim ela foi mais uma vítima da Covid. Sim, ela jovem demais. Sim, ainda caem muitas lágrimas dos meus olhos enquanto digito esse texto.

Sim, eu tenho tanto pra falar…o luto é um processo estranho, é um abrir a caixa preta de tanta coisa escondida e sublimada.  Sempre ficava pensando em todos os anos que morei sozinha com minha mãe que eu não seria ninguém num mundo em que ela não estivesse. Porém, me vejo sendo alguém mesmo ela não estando fisicamente aqui.

Ela sempre foi uma mulher de fé. Agora me vejo tendo uma fé para além do que eu posso explicar ou mesmo entender. Na verdade eu me permito apenas sentir essa fé, sinto ela passar por mim e me sustentar. O Espírito Santo de Deus sopra e ninguém sabe de onde vem e nem para onde vai. E nessa brisa leve e suave eu sigo no meu caminhar.

Tenho gratidão por tudo que essa mulher de fé fez por mim e gratidão TB a Deus por tê-la escolhido para me gerar e cuidar.

Lágrima caem ao pensar nisso tudo? Lógico que sim! Lágrimas são preces silenciosas. Elas botam pra fora o q o coração já não consegue expressar. E se eu choro é pq amei e continuo a amar demais essa mulher. O amor é infinito, é fonte inesgotável, imortal. Ele nos transforma mesmo nos momentos mais desafiadores.

 

 

 

Na maternidade não há competitividade

Lá se vai um mês que estamos na clausura. Daqui a cinco dias, a minha primogênita Catarina completará uma década. Dez anos de uma grande mudança em minha vida,com grandes rupturas e alguns processos naturais. Dez anos que me tornei mãe e que não consegui mais pensar como antes ,egoistamente. Dez anos dos quais pelo menos sete deles eu tive que lutar por minha filha de forma muitas vezes solitária, que tive que ouvir de pessoas que achavam q por eu não ser casada deveria escutar seus conselhos e intromissões e ouvir que os “defeitos” no comportamento da minha filha vinha dessa condição de ser mãe carreira “solo”.  Em todos esses anos eu tive que me dedicar acima da média, trabalhar mais, estudar de madrugada e nunca desistir de querer construir algo, porque já não era só eu. Eu perdi meu direito de adoecer, de ser fraca e de morrer. Alguém depende de mim. Nesses anos todos tive que aprender a rever as coisas pelo olhar de uma criança, do ineditismo, das sensações em estado bruto. Tive que desenvolver a tolerância a níveis quase intoleráveis (rsrs). Algumas vezes me permiti enlouquecer, repeti comportamentos que sempre abominei na minha mãe ( consegui inclusive entender pq as vezes ela foi tão ignorante com a gente),mas nunca realmente quis desistir de ser mãe. E a gente pode desistir de ser mãe? acho que desistimos quando negligenciamos os cuidados, quando a gente não quer mais dizer o “não”, quando desprezamos a responsabilidade na formação da personalidade de alguém.

Mas , até as mães que desistem, elas TB por alguma razão desistem. E eu não me sinto a vontade de julgar…

Minha maternidade me fez ver mais o lado do outro, sem dúvida…

Ninguém é melhor mãe que ninguém. Muitas são as melhores dentro das suas próprias limitações. Não dá pra ter competitividade nesse campo.

Bem,hj o texto do fica por aqui.

Hj esse texto escrevi só para não deixar meu cérebro enferrujar.


 

Dias iguais?

Não é a primeira vez que passo por uma quarentena. Na iminência do parto de Catarina, no ano de 2010, a gripe suína matava muitas mulheres grávidas. Eu, como estava no grupo de risco, deixei de ir ao trabalho, supermercado, igreja, não colocava nem a minha cara na rua. Na época eu era mega hipocondríaca…chegava a brigar com a minha mãe para ela ir se vacinar, lavar as mãos, tirar a roupa que usava para trabalhar assim que chegasse em casa.

Mas agora é diferente. Não sou só eu. Isso é que dá medo. O tempo tá estranho. Tenho medo de começar a achar que o mundo lá fora não existe. Tenho medo de passar muito tempo sem ver Catarina e sem ver minha mãe. Essa é a sensação mais estranha.

Os dias vão passando …alguns tão iguais que me perco. Meu sábado tava com jeito de terça. Meu domingo então…

Ainda bem que ocupo muito meu tempo com tarefas domésticas, internet…e que falo sempre com mamãe, Catarina, amigos.

Isso tudo vai passar. Não consigo ver o dia e hora, mas vai passar. E os dias vão voltar a ter suas mesmas identidades. Sábados vão ter cara de sábado.

Com o tempo…

Com o tempo a maturidade torna intolerável fazer papel de idiota. Com o tempo toda perda de tempo pesa pq já nos tornamos cientes de que não temos tanto tempo ou de que não somos donos dele.  Com o tempo já não falamos com frequência “tanto faz” pq faz sim diferença. Com o tempo nos afastamos de pessoas amargas e vampirescas porque prezamos mais por nossas próprias sanidades. Com o tempo nos permitimos não fazer sala para pessoas chatas, simplesmente saímos da sala. Com o tempo o sapo que vivia entalado na garganta pula pra fora e vomita na cara dos intragáveis e indigestos.

Mudar para que?

Resolvi ser loira outra vez. Parece que eu precisava de uma grande mudança. Uma mudança em que eu pudesse me comprometer comigo mesma. Ser loira dá muito trabalho, mas eu precisava me cuidar mais , perder (ou ganhar) tempo comigo mesma. Precisava olhar no espelho e reconhecer uma mulher com aparência que me agradasse. Precisava olhar para ela e dizer: “Nossa, como estou linda hoje”. Precisava ver os ponteiros da balança decrescer uns dois quilos e dizer: ” Parabéns. Você se esforçou e está mais linda”.

Eu tomei abuso de umas roupas e simplesmente me desfiz delas. Pior do que roupas que não te caibam no corpo, são roupas que te fazem desconfortável pq não te representam. Um dia me olhei, me vi resmungona e desgastada, cansada e sistemática e disse: “essa não sou eu, nem quero ser assim”. Ganhei uns brincos bem grandes e exóticos no Natal. Pendurei nas orelhas e me senti ousada. Essa sim, essa é a mulher que quero ser…

Essa vida, sabe, ela tende a ser pesada e vai pesando cada vez mais com os anos, mas a nossa alma , nosso espiríto tem que se tornar mais leve, tem que tirar as “cargas” de cima da gente…senão com tempo vamos envergando…se não dermos por nós…viramos burros de carga, com grandes olheiras na cara, com dores pelo corpo…numa vida cinzenta.

Eu realmente preciso das cores.

Ontem me vi “pegando” com olhar contemplativo as cores do fim de tarde, aquele tom de amarelo misturado com Rosa e Azul, o vanilla sky ( que só me lembra o Tom Cruise naquele filme de mesmo nome). Isso sim são cores, isso sim é vida.