Fazer 40 é mais fácil que fazer 30

Chegando aos ENTA

Quando eu fiz 30 tive crise de identidade e achei que o tempo era um bicho cruel que estava me deixando velha. E lá se vão dez anos…passei por tanta coisa e chegando nos ENTA me sinto mais feliz que aos trinta. Se estou ficando velha? É claro que sim , mas já nem me importo com isso. Amando essa a tranquilidade mental que as quatro décadas estão me proporcionando. Parece que falar não se tornou mais fácil. E ser mais fiel com o que se sente e o que se faz. Acho q consigo ser mais compreensiva comigo.

Nos trinta queria amar muito e ser amada. E eu amava muito. E quebrava a cara tantas vezes. Me doava demais. Sentia o peso do mundo sobre as minhas costas. Nos trinta sentia uma pressão infinita de ser boa, de ser jovem , de ser linda, de ser sexy, de ser super. Nossa, quanta cobrança!

Aos quarenta a sociedade espera que eu seja velha, que nos lugares que eu frequente tenha lugares pra sentar, que minhas roupas já não sejam curtas nem decotadas. Deixem eles criarem essas expectativas. Rsrs

Por incrível que pareça me sinto bem sob essa minha pele. E se não fosse essa cobrança absurda por uma juventude infinita talvez me sentisse bem melhor.

Hj faço minha maquiagem por amor a mim mesma. Penso nisso como um afago que faço em mim. Compro roupas pq me apaixono por elas e porque me sinto livre quando as uso.

Ter cabelos brancos é melhor que não ter cabelos.
Ter gordurinhas no corpo é melhor que passar fome. Esses olhos já riram e choraram tanto que por isso sobram umas linhazinhas de expressão. No fundo, sempre haverá tanto para agradecer. Pra Deus só peço mais do mesmo: muita vida e a companhia dos amores meus.

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Falando de saudade

Saudade é uma coisa estranha. É presença da ausência. Me pego muitas vezes sentindo falta de pequenas coisas de mamãe. Lembro de um cravo infinito que ela tinha nas costas, que eu sempre espremia e sempre tinha aquela “massinha” dentro. kkk. Que coisa bizarra.

Tem dias que queria que mamãe estivesse aqui nem que fosse pra ela brigar comigo. Sinto uma mágoa pelo que a gente não viveu. Queria que ela tivesse ouvido as músicas de Tierry, queria que ela tivesse visto a escova secadora que comprei. Queria ter passado no cabelo dela. Às vezes vou a algum lugar com bastante plantas, e fico pensando que ela amaria estar lá. Fico pensando o que ela faria quando soubesse que alguns amigos nossos se divorciaram. Ontem assisti o filme “A voz do empoderamento ” na Netflix e mais uma vez pensei que seria um filme sobre o qual conversaríamos, ou ela iria assistir antes de mim e me indicar.Antes de morrer , ela disse que tinha um filme pra me indicar, mas não lembrava o nome. Ela morreu e não disse.

Pelo que eu me conheço, mesmo se ela tivesse dito, eu não teria assistido. Não sei porque, mas criei um bloqueio. Até hoje nunca consegui assistir “Anne with e” porque sei que ela gostava. Parece que se eu assistir vou estar um pouco dentro da “mente ” dela, um lugar sagrado, onde não tenho mais coragem de entrar. Talvez seja o mesmo bloqueio que tenho de entrar nas nossas conversas de whatsapp. Eu sei, é estranho, mas é mais uma estranheza dentro desse caminho que é o luto, e que prefiro respeitar.

Sim, mas eu comecei esse post falando de saudades…

De dois anos pra cá a saudade virou companheira. Às vezes as lembranças me maltratam, como na última vez que fui no Cohatrac e passei perto da nossa casa, lembrei da nossa vida, da paz que tinha em estar na casa da minha mãe. Será que é isso que os bebês sentem quando se lembram de como é estar no útero? Um lugar calmo, quente, acolhedor e seguro. Imagina não poder voltar pra esse lugar? é bem isso que sinto.

Tem horas que a saudade me abraça, com uma lembrança feliz, engraçada, é como se ela estivesse viva. E eu estivesse falando de alguém que acabou de sair daqui de casa, de perto de mim. Que coisa louca. Tem pessoas que são vivas de mais para morrer.

Me desafiando

Comecei a me desafiar a escrever mais por aqui. Passam muitas ideias loucas pela minha cabeça. Sobre que rumos tomar na minha carreira. Se continuo a ser loira. Que sonhos ainda tenho nessa vida.

Hj vim ao endocrinologista. Chegando nos 40 tenho q me cuidar mais. O consultório é no centro da cidade, lugar muito difícil pra estacionar. Deixei o carro no meio do caminho e peguei um Uber. Deveria fazer isso mais vezes. Me deixar ser passageira, deixar alguém guiar. E assim observar os detalhes da viagem… olhar as janelas…olhar as vitrines de grandes novidades. A viagem foi curta, mas deu tempo de refletir muita coisa, inclusive sobre minha necessidade de voltar pra terapia.

Necessidade de conversar com alguém que não seja personagem da minha vida, que olhe minha história com objetividade. Que tenha um olhar distanciado e que de repente mostre-me algo tão claro, mas que não consigo ver.

Estava conversando com minha irmã, sobre como meu marido está empolgado no novos projetos dele. E eu aqui…sem sonho algum. Sem vontade de me embrenhar num mestrado, estudar para um concurso, tentar uma monitoria em EAD. Parei até de alimentar esse meu espaço aqui.

Eu que sempre botei paixão em tudo. Que tinha que me apaixonar pelas causas, pelos cursos, pelos objetivos… tô aqui na margem vendo o rio correr.

Verdade seja dita. Nesses últimos dois anos me dei férias. Embora que férias mesmo do meu trabalho eu pouco gozei. As férias q falo foram férias de mim mesma. De tantas cobranças, de querer ser 100% em tudo, de me autoflagelar por não conseguir ser, de me desgastar em discussões infrutíferas.

Antes eu olhava para a Karine Priscila do passado e tinha raiva dela, questionava suas escolhas, achava q ela tinha feito muita besteira e pagava um preço alto por isso. Depois passei a ter pena daquela garota. Achava q não tinha como ela ter feito escolhas diferentes, era o q tinha aparecido…como ser mais esperta com a criação q tinha tido? Com o q tinha ouvido? Com o q tinha vivido? A bagagem dela permitia ser diferente? Não tinha como

Sabe essa história que falam por aí…que a gente tem que virar uma chave pra mudar um pensamento? Que mudando os nossos cânones internos tudo muda?

Pois me digam…onde está essa chave q eu quero girar!

Uma mulher parada

O tempo diz que vai correndo lá fora e por aqui vou me acabando por dentro. Tenho muitas coisas pra dizer mas parece que perdi a mão de colocar pra fora da mente, através das palavras, as experiências que correm por aqui. Tem dias que fico de saco cheio da minha rotina. Esse corre e corre que faz até eu esquecer quem eu sou. Acho que vou me anestesiando cumprindo prazos, fazendo despachos, trabalhando, cuidando de filhos, lavando louças. Agora entendo um pouco porque muitas vezes nos filmes as mães não são protagonistas das tramas. É porque elas estão sempre ocupadas, cansadas e afins. São distraídas pelos protagonismos dos outro e vão ficando em  segundo plano.

Meu amigo Rodolfo me deu um fio de esperança,ele me lembrou que em outras histórias existem mulheres complexas , de meia idade , com narrativas incríveis. Sexy and city , por exemplo…eu amo.

Lembro de quando eu estava às portas dos 30 anos, dos medos que eu tinha ( que não eram pouco), das crises existenciais, de achar que meu tempo estava se consumindo e eu estava realizando pouco, que eu estava me achando velha ( vou soltar uma risada bem aqui).

Às portas dos 40 já nem tenho tantas crises. Medos? Talvez. Mas já não é por mim, é por meus filhos…

Será q a gente deixa de ser protagonista mesmo? Será q a gente se apaga dentro de nossa própria história?

Será q as vontades alheias se sobrepõe às nossas?

Ou a gente se sente cansado de brigar e de impor por coisas q não fazem tanto sentido.

Vou ficar aqui refogando essas idéias e depois venho contar pra vcs.

A CARTA DO ANO DE 2021


Chegamos ao final do ano de 2021. Estamos de pé. Vemos no horizonte o prenúncio de um outro ano.
Somos o somatório de todas as nossas experiências, sejam elas alegres ou tristes, exitosas ou desastrosas, lindas ou feias. Estamos aqui porque num passado distante, alguém se apaixonou por alguém, porque alguém disse sim, ou mesmo porque outro alguém disse não. Mas seja como for… Nossas histórias são únicas.
No ano passado eu sobrevivi. Neste ano tive que aprender a viver sendo uma nova pessoa. Sigo mais consciente de que a vida é um rio, só dar pra descer a correnteza, não dá pra nadar contra a corrente não. E ela não para, não dá chance de parar e enxugar a lágrima, não permite congelar num momento mágico e bom. Ela só permite seguir em frente.
Sempre desconfiei que alguém la no céu me amava, hoje eu tenho certeza. Por isso, tenho feito da minha vida a minha obra. Escolhi levar meu caminho com leveza. Dias ruins sempre vão existir, mas eles não podem me marcar tão fortemente ao ponto de me definirem.
Eu sou o sonho da minha mãe, assim como meus filhos são os meus sonhos, minha herança pra esse mundo. Olho esses dois seres lindos e penso: “como essas preciosidades moravam outro dia na minha barriga e agora estão aqui me enchendo de perguntas?”. Para eles eu sou o Google, eles acham q eu sei tudo. Mas eu não sei, sou limitada, por isso que são necessários novos anos, porque sempre há algo novo a aprender.
Desejo que o autor da vida esteja com a sua boa caneta escrevendo capítulos lindos de nossas histórias. Que o ano de 2022 contenha momentos maravilhosos, restauração, realização, sonhos novos, risadas lindas. Se estes anos que passaram foram feitos pra nos podar, que o ano de 2022 seja feito para florescer. O autor da vida é capaz de tudo, ele é o bom jardineiro.
Boas festas!!!
Abençoado 2022!!!
Amo vocês.

Como sobreviver a um tsunami?

Quando mamãe morreu parece que passou um tsunami em cima de mim. Me levou pra longe? Talvez. Mas levou muita coisa de mim. Curiosamente no dia que ela faleceu minha amiga Ticiane teve um pesadelo comigo, no qual eu era levada por uma grande onda. Dizem que o luto tem cinco fases: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. Segundo a psicóloga que assistenciou minha irmã só existem duas fases: quem vc era antes e quem vc passa a ser dali em diante.

É essa interrogação que me cutuca: E agora não tenho mais mãe? é isso mesmo? quem me protege daqui em diante? Me sobrou ser so mãe de alguém? Esposa? Amiga? Profissional? Cresci de vez , não tenho mais mãe pra me cuidar…Me resta ser adulta. Decidir sobre atestado de obito, encerramento de conta de banco, inventário, venda de imóvel, investir um dinheiro que ganhei sem querer ganhar (ou pelo menos não gostar do fato gerador). Ser adulto é phoda.

Mas foi até aqui que a onda gigante me trouxe. Nadar contra a maré é se cansar. Se minha estrutura foi implodida, vou reconstruir da melhor forma. Vamos ver o que dá pra fazer com o entulho. Vou edificar as paredes na cor que acho melhor. Do jeito que me sinto bem, com as lembranças do que em mim é forte. E as lembranças me fortalecem. A gente paga um alto preço pelo amor. Quando a gente ama muito o corte da ausencia dela é dor profundo. Mas eu aceito o preço: a dor no peito vez quando, as lágrimas todo santo dia. A certeza de amar e ser amado vale o preço.

O luto e suas estranhezas

O luto é algo que ninguém escolhe. Ele escolhe a gente. Nessa travessia tem horas que a gente se desconhece.

Depois que mamãe faleceu me deu uma falta de memória sobre que tínhamos vivido nos meses anteriores. Um branco tão grande. Não lembrava de nada. Em compensação comecei a lembrar de coisas da minha infância com tanta nitidez, eu parecia aquelas pessoas com Alzheimer, que perdem a memória recente e lembram bem de coisas quando eram jovens.

Outra coisa estranha era quando eu acordava e logo ao abrir os olhos, juro valendo, as lágrimas desciam. Era muito estranho…eu nem chegava a pensar. Era abrir os olhos e as lágrimas caíam.

Também era muito estranho quando eu ia comer um doce e achava aquele sabor insuportável. Doce demais. Coisas banais que eu comia sempre, como brigadeiro por exemplo, se tornava insuportavelmente doce. Depois, com o tempo esse gosto foi ficando normal.

Outra coisa estranha: a primeira vez que sorri. Eu estava na cama e Catarina falou algo engraçado e aquilo fez eu soltar uma gargalhada, mas uma gargalhada estranha parecia um lamento, uma coisa  rouca, foi difícil até mesmo eu me escutar gargalhando. Um troço bem esquisito mesmo.

E assim foram acontecendo outras coisas que agora já não me lembro tanto…e cada dia era um dia dessa nova vida, onde as vezes eu nem me reconhecia, mas tinha que enfrentar e me acolher diante dessa estranheza. E ainda sigo assim…

A Carta do Ano

Eu sempre me questionei se num ano como esse eu teria coragem de enviar a Carta do Ano. Ano passado (2019), num dia, do nada, Cataroca virou para mim e disse: “Mãe, qual foi o pior dia da sua vida?” Ao que eu respondi: “Filha, acho que esse dia eu nunca vivi”. E aí veio 2020 com dias e dias difíceis. Com momentos desafiadores que nem na minha fértil imaginação pensei que seria possível.Mas o fato é que hoje estou aqui diante do computador, escrevendo essas mal traçadas linhas, com o coração ainda cheio de esperanças, tecendo sonhos, olhando para trás e percebendo que houve uma Força Maior que esteve comigo em todos os momentos deste ano. Esse meu Deus escreveu em detalhes todos os capítulos deste ano e me fez ver no meio do caos o Seu cuidado. Ele me preparou para o momento mais difícil, me rodeou de amigos, de amor, de orações.Tudo que passa por dentro do fogo deixa de ser o que é. O milho vira pipoca, a água vira vapor, até mesmo o metal amolece e se torna tantas outras coisas. Passar pelo que passei neste ano me fez virar outra pessoa. Não havia como “passar pelo fogo” e sair intacta do outro lado. Mas ao contrário do que pensei não virei pó. Surgi das cinzas outra vez, de forma inexplicável (ninguém consegue explicar o poder de Deus). O ano de 2020 ficará marcado para mim como o ano que mamãe partiu para a eternidade. Naquele dia 17 de maio, às 17 h, quando bateu uma ventania estranha aqui para os lados do Araçagy eu senti um medo irracional e depois a calmaria. Eu não sabia, mas naquela hora ela havia partido. Uma hora depois, quando eu havia acabado de orar com meus amigos do peito e ainda de joelhos eu estava, meu telefone tocou e aquela notícia tão difícil. E na hora mais difícil o Senhor me preparou.Eu queria aqui poder fazer a lista nominal de todos que estiveram ao meu lado nessa ano. Mesmo com o distanciamento social eu senti o amor dos meus amigos me amparando, cuidando zelando. Por medo de esquecer o nome de alguém e cometer uma injustiça não vou citar o nome de ninguém, mas gostaria de agradecer muito a cada manifestação de carinho, a cada conselho, mensagem, áudio, telefonema. Estranhamente, no momento mais difícil, eu senti que tinha marcado a vida de algumas pessoas de forma tão positiva ao ponto delas verdadeiramente se importarem com a minha dor. Então, queridos, obrigado por tudo. Amigos de verdade sentem a alegria e a tristeza do outro e se importam com isso.Desejo que o próximo ano seja de coisas boas e melhores. Que Deus nos abençoe com saúde, paz e alegria, mas principalmente com a Sua presença em nossas vidas,nos permitindo ver os milagres diários, Seu Amor infinito nos cercando com cuidado. Quando Deus está no centro de nossas vidas todas as outras coisas são cheias de sentido.Escrevo essa carta porque o amor tem quer ser vivido e manifestado diariamente. E eu não poderia deixar passar uma oportunidade de dizer que você que está lendo essa carta continua no meu coração e que eu me importo com você.Boas festas. Que Deus te abençoe.Da sua amiga de sempre,Karine Priscila.

Seguindo…

Se minha vida fosse dividida em etapas existiria dois grandes marcos que me modificaram substancialmente. Um seria a chegada de Catarina e o outro seria a partida de mamãe.
Quando Catarina chegou eu tinha 26 anos, mas minha cabeça era de uma adolescente, eu não me preocupava com nada, talvez nem comigo mesma. Eu mudei muito depois que ela chegou, deixei de ser tão egoísta, passei a ver a vida com os olhos dela, passei a ser empática com as outras mães, a me ver como mulher, a ter mais força pra dizer alguns nãos. Passei a entender meus limites. Me reconheci com uma força que não sabia que tinha, uma capacidade de pensar de forma múltipla: dirigindo, conversando e planejando ao mesmo tempo, por exemplo. Passei a me preocupar com minha vida…se eu morresse quem cuidaria dela?
Enfim, mudei muito. Era uma pessoa antes dela e outra depois dela.

A partida de mamãe. Sempre fui unida com minha mãe, uma simbiose, algo que só vendo pra explicar. Mas nossa relação tinha uma hierarquia. Ela era minha generala ( eu chamava assim de forma carinhosa e ela ria). E agora não me acho mais a mesma depois que ela partiu. Eu entendo que ela fez tudo por mim, entendo que seu corpo estava cansado, entendo que amou imensamente, mas… existe o mas…
O mas é a parte que ainda não entra na minha cabeça…a parte que lembra que em fevereiro ela estava aqui, a parte que não se conforma que em novembro ela faria 58…
E apesar disso tudo, apesar de todos os dias eu pensar nela, apesar de eu não compreender esse mistério de onde vem essas pessoas e pra onde elas vão. Apesar de eu acreditar muito em Deus e afirmo que ele é bom e tem cuidado de mim…esse “mas” ainda tem espaço no meu dia a dia.
Esse “mas”, por outro lado, também virou uma força divina e sobrenatural que não sei explicar. Sempre tive muito medo da minha mãe morrer, MAS não sucumbi a minha própria tristeza. Sempre tive medo de não ser nada depois de sua partida, MAS me ponho de pé , vou trabalhar, cuido dos meus filhos, penso em fazer obras na minha casa ( coisa que sempre odiei) , faço planos com meu marido. Eu estou seguindo em frente com essa força que sinceramente não sei de onde vem.E agradeço e agradeço a esse Deus que me põe de pé. E agradeço por tudo que vivi com ela. E agradeço pelos perrengues que passei pra cuidar de Catarina e TB de mamãe quando eu morei com ela e pude fazer isso. Quando penso numa dimensão maior, com o olhar mais distante…penso que estava tudo escrito para ser assim mesmo, para que todos sofressem menos.

O luto e a luta diária

O luto é um dos processos mais estranhos que já passei pela minha vida. Você é de repente colocado num lugar que não escolheu…vc vira o viúvo, o órfão…enfim.  E dali em diante não és mais o mesmo. É um caminho que só se segue adiante, entre momentos escuros e claros. Não é a toa que escolhem o preto e branco pra simbolizar o luto. É uma experiência contra dialética. Não há linha reta. É um ir e vir. Todos os dias tenho memória trazidas a tona. O passado é constante. O passado se faz presente. Penso em quando eu era criança, coisas da minha adolescência, experiências vividas com e sem mamãe.  Meu pai TB tem lembrado de tanta coisa, da primeira vez que mamãe foi ao trabalho dele, lembra da roupa da estampa…Em compensação temos esquecido de coisas recentes.

O luto não é igual para cada um. Embora existam as cinco fases do luto pelas quais todos passam, o luto é diferente. Alguns definem como um estágio de loucura, outros sentem tanta raiva e se tornam agressivos e indóceis. E se a gente olhar o contexto do enlutado todas essas reações são fáceis de entender.

Não há coisa que me deixe com mais raiva do que aquela pessoa que chega e diz “isso vai passar”, “logo logo vc supera isso”…

Deixa eu te dizer: vai passar no tempo certo, esse tempo não me pertence. Eu vou chorar quantas vezes eu quiser, eu vou me lembrar quantas vezes der na telha. Por agora eu não tenho obrigação de superar nada. Superar o q? Esquecer quem eu tanto amei ( e ainda amo) ? Jamais.

Tem um Deus por trás de tudo, por trás dos bastidores dessa grande peça que é a vida há um Deus inteligente e maravilhoso. Ele me conhece, sabe do que sou capaz, conhece bem todas as minhas potencialidades. Ele sabe que eu não tenho condições (e nem devo) mentir para mim mesma nesse exato momento.

As pessoas tem medo de suas próprias fragilidades. Talvez esse medo seja expresso nas frases do tipo “vc tem que superar”. Elas querem te ver superar pq não aguentam seu próprio sofrimento.

Por hj é isso, pessoal. Por hj é o q dou conta de falar. Depois eu volto aqui.